arma de um covarde - queixou-se o rei.
Ned já ouvira o suficiente.
- Quer enviar assassinos contratados para matar uma garota
de catorze anos e ainda se encobre em subterfúgios acerca da
honra? - empurrou a cadeira para trás e pôs-se em pé. - Faça-
o você, Robert. O homem que decreta a sentença deve
brandir a espada. Olhe-a nos olhos antes de matá-la. Observe
suas lágrimas, escute suas últimas palavras. Pelo menos isso
você lhe deve.
- Deuses - praguejou o rei, com a palavra explodindo em sua
boca como se mal conseguisse conter a fúria. - E você ainda
fala sério, raios o partam - estendeu a mão para o jarro de
vinho que tinha junto do cotovelo, achou-o vazio e o atirou à
parede, estilhaçando-o. - Já não tenho vinho nem paciência.
Basta disto. Só me interessa que a coisa seja feita.
- Não participarei de um assassinato, Robert. Faça o que
quiser, mas não me peça que coloque meu selo nisto.
Por um momento Robert pareceu não entender o que Ned
estava dizendo. O desafio não era um prato que ele saboreasse
com frequência. Lentamente, seu rosto mudou à medida que
a compreensão chegava. Seus olhos se estreitaram e uma
vermelhidão subiu-lhe pelo pescoço por trás da gola de
veludo. Irado, apontou o dedo para Ned.
- É a Mão do Rei, Lorde Stark. Fará o que ordeno ou
encontrarei uma Mão que o faça.
- Desejo-lhe sucesso - Ned desprendeu o pesado prendedor que
lhe segurava as dobras do manto, a ornamentada mão de
prata que era o distintivo do seu cargo. Colocou-o na mesa em
frente do rei, entristecido pela memória do homem que o
colocara em sua roupa, do amigo que amara. -Julgava-o
melhor homem que isto, Robert. Julgava que tínhamos
encontrado um rei mais nobre.
A cara de Robert estava roxa.
- Rua - coaxou, engasgando-se em sua raiva. - Rua, maldito,
estou farto de você. O que está esperando? Sai, corre de volta
para Winterfell. E assegure-se de que eu nunca mais olhe para
a sua cara, ou juro que terei a sua cabeça na ponta de uma
lança!
Ned fez uma reverência e virou-se, sem mais uma palavra.
Conseguia sentir os olhos de Robert postos em suas costas.
Enquanto saía a passos largos da sala do conselho, a discussão
foi reatada quase sem uma pausa.
- Em Bravos há uma sociedade conhecida como os Homens
Sem Rosto - sugeriu o Grande Meistre Pycelle.
- Faz alguma idéia do preço que eles custam? - protestou
Mindinho. - Poder-se-ia contratar um exército de mercenários
comuns por metade do preço, e isso para dar cabo de um
mercador. Nem me atrevo a pensar no que pediriam por uma
princesa.
O barulho da porta se fechando em suas costas silenciou as
vozes. Sor Soros Blount montava guarda fora da sala, usando
o longo manto branco e a armadura da Guarda Real. Deu
uma rápida olhadela curiosa pelo canto do olho, mas não fez
pergunta alguma a Ned.
O tempo estava pesado e opressivo quando Ned atravessou a
muralha interior, de regresso à Torre da Mão. Podia sentir
no ar a ameaça de chuva, que agora receberia de bom grado.
Poderia fazê-lo sentir-se um pouco menos sujo. Quando
entrou em sua sala privada, mandou chamar Vayon Poole. O
intendente veio de imediato.
- Mandou me chamar, senhor Mão?
-Já não sou a Mão - disse-lhe Ned. - O rei e eu discutimos.
Vamos regressar a Winterfell.
- Começarei a fazer os preparativos de imediato, senhor.
Precisaremos de uma quinzena para preparar tudo para a
viagem.
- Talvez não tenhamos uma quinzena. Talvez nem tenhamos
um dia. O rei mencionou algo sobre ver minha cabeça na
ponta de uma lança - Ned franziu a sobrancelha. Não
acreditava verdadeiramente que o rei lhe fizesse mal, Robert
não. Agora estava zangado, mas, uma vez que Ned estivesse
em segurança, longe de sua vista, sua raiva arrefeceria, como
acontecia sempre.
Sempre? Súbita e desconfortavelmente, deu por si lembrando-
se de Rhaegar Targaryen. Morto há quinze anos, e Robert o
odeia tanto como sempre odiou, Era uma ideia
perturbadora... e havia o outro assunto, que envolvia Catelyn
e o anão, do qual Yoren o prevenira na noite anterior. Isso
viria à luz em breve, era tão certo como o nascer do sol, e com
o rei numa fúria negra daquelas... Robert podia não se
importar nem um pouco com Tyrion Lannister, mas sentiria o
orgulho atingido, e não havia modo de dizer o que a rainha
faria.
- Talvez seja mais seguro se eu partir mais cedo - ele disse a
Poole. - Levarei minhas filhas e alguns guardas, O resto de
vocês podem nos seguir quando estiverem prontos. Informe
Jory, mas não diga a mais ninguém, e não faça nada antes
que eu parta com as meninas. O castelo está cheio de olhos e
ouvidos, e prefiro que não se saiba dos meus planos.
- Será feito conforme ordena, senhor.
Depois de Poole partir, Eddard Stark foi até a janela e
sentou-se, pensando. Robert não lhe deixara alternativa que
conseguisse vislumbrar. Devia agradecê-lo. Ia ser bom
regressar a Winterfell. Nunca devia ter partido. Seus filhos o
esperavam lá. Talvez fizesse com Catelyn um novo filho
quando regressasse, ainda não eram velhos demais. E, nos
últimos tempos, sempre dava por si sonhando frequen